07/08/2007

A dor de ontem e a Educação

A nossa última postagem reflectiu um pouco acerca dos diferentes padrões de educação. Falámos também um pouco acerca das consequências que estes estilos podem ter no desenvolvimento das crianças.
Hoje porém, embora continuemos neste tema, reflectimos acerca da transmissão transgeracional dos estilos parentais. Trocado por miúdos: a maioria das vezes educamos os nossos filhos, como os nossos pais nos educaram.
Mas, às vezes, isso não acontece porque: "eu não quero que o meu filho sofra o que eu sofri", ouvimos com frequência. E assim, desenvolvem-se nos pais mecanismos compensatórios em realção ao filhos, como a super-protecção, o dar tudo, o ter tudo, ...
A propósito deste tema encontrei uma frase no Manual do Guerreiro da Luz, de Paulo Coelho, que me parece adequada a este tema: "A dor de ontem é a força do guerreiro da luz".
Muitos pais têm consciência que estes mecanismos compensatórios trazem consequências... têm consciência da sua dificuldade em dizer não... têm dificuldade em exigir aos filhos... em frustrar.
Essa dor que trouxemos connosco é a nossa, de pais, não a dos nossos filhos.

Educar é ajudar a crescer; e ajudar a crescer é dizer sim e dizer não, dar e "não-dar", é exigir e às vezes "deixar andar".
Já agora valia pena pensar nisto.

7 comentários:

Jose Gonçalves disse...

Olá Andreia

Bom dia
O tema é deveras interessante e sobre ele queria pôr à sua consideração algumas questões que na minha óptica acrescentam razões que levam os pais a terem o tipo de educação que a Drª Andreia descreve.
No tempo dos meus pais a sociedade era mais fechada, a família não estava tão exposta e por isso a educação de cada um de nós não saía de entre as paredes de nossas casas.
Com o evoluir da sociedade, a facilidade de acesso que os nossos jovens hoje em dia têm de chegar a todo o tipo de informação, graças às novas tecnologias, veio fragilizar muito a acção educativa dos pais em certos casos.
Tudo está mais exposto, tudo é mais aberto, e se é certo que de alguma maneira isso possa trazer melhorias à educação, também não é menos certo que trará alguns riscos.
As noticias correm depressa e chegam a nossa casa à velocidade da luz, sendo fácil ter-lhes acesso com um simples ligar de botão.
Infelizmente, nem todas serão boas e todas elas influenciam os comportamentos humanos, quer dos jovens quer dos educadores e menos jovens.
Daqui resulta que se estabelece uma espécie de ligação delicada entre pais e filhos, que por muito que se esforcem sofrem também um pouco as tais influências nefastas do mundo que nos rodeia. É preciso criar um pouco o equilíbrio entre as partes, ou seja, conduzir a educação dos filhos, saber ouvir as suas opiniões mas sobretudo saber dizer NÃO, quando é preciso.
De tudo isto resulta que, nós pais não estamos hoje só sobre a influência da forma como fomos educados mas também sofremos um pouco a agressividade dos tempos que correm onde tudo de bom e de mau está mais à vista e de alguma forma pode criar na mente dos educadores como que uma sensação perigosa de chantagem emocional que que se faz sentir e atemoriza os educadores.
Não será?
Gostaria de saber a sua opinião, embora reconheça que a minha exposição esteja um pouco confusa talvez, mas creio que me entenderá.
Um beijinho
José Gonçalves

sandra morgado silva disse...

Aki estou, de novo!!!
Boa citação!
Reconheço, como mãe, que isso, em parte, ocorre lá em casa. Reflectimos muito mais acerca da educação que tivemos, das oportunidades que nos foram dadas, das injustiças que sentimos, das falhas que sofremos, das faltas que tivemos, … Queremos sempre o melhor para os nossos filhos. MAS, devemos saber que, como referiste, essa “não é a dor deles”.
Devemos estar presentes, sempre que possível e orientá-los a fazerem as melhores escolhas, no entanto, são eles que escolhem. Não podemos colocar os nossos filhos (por mais vontade que, muitas vezes, tenha) dentro de uma redoma de vidro e mostrar-lhe apenas as coisas boas que a vida tem.
Nem todas as crianças necessitam de cair para aprender, mas por vezes ajuda… As crianças não são todas iguais, nem os pais. Devemos conhecer os nossos filhos e mostrar-lhes experiências (muitas das que vivemos), contar-lhes histórias (boas e más, que se passaram connosco), deixá-los reflectir e criticar (ponderar se estivessem no nosso lugar), mostrar consequências de actos de outros, devemos crescer COM eles e não por eles.

Fico-me por aqui…
Bjs
Sandra

Andreia Mendes disse...

Olá José,

Antes demais tenho que lhe pedir desculpa pelo atraso do meu comentário mas a verdade é que tenho tido alguns problemas de ligação à net mas que estão já resolvidos.

Obrigada pelo seu comentário tão pertinente.

Compreendo bem a reflexão que fez e partilho-a consigo.

Cada vez mais as nossas crianças e jovens estão expostos a mais pessoas, mais experiências, mais informação que chegam por vias que os pais não conseguem controlar.

Consequência disso, com frequência os pais sentem que não podem ou não conseguem controlar a informação a que os filhos têm acesso e/ ou mesmo a sua educação.

Parece-me que o segredo está na confiança da partilha, ou seja: se a criança/ jovem confiar nos seus pais e sentir que poderá partilhar as dúvidas e descobertas que faz sozinho ou com os colegas não hesitará em fazê-lo.

Digo-lhe mais: a experiência diz-me que deseja fazê-lo.

No post anterior podemos encontrar este equilibrio de forças, aquilo que os filhos desejam e os limites dos pais no estilo democrático.

São pais que ouvem os seus filhos com verdadeira empatia mas não deixam de fazer aquilo que consideram mais adequado, explicando sempre os seus motivos.

É o que chamo de AMOR INTELIGENTE.

Este é o grande desafio da Educação dos nossos dias.

Gostaria ainda de salientar ainda uma outra expressão sua "agressividade dos tempos que correm". Não puderia concordar mais consigo!

A velocidade e intensidade da informação e dos acontecimentos quase sempre não proporciona o tempo necessário à reflexão. As pessoas precipitam-se no que dizem e fazem e, muitas vezes, as consequências são desastrosas.

Fundamental, considero eu, são os pais (mãe e pai) terem bem presente aquilo que é prioritário na educação que querem dar aos seus filhos e claro, estarem com a sua "dor do passado" ultrapassada.

Eu acredito que os pais são capazes... e os filhos também!

Andreia Mendes

Andreia Mendes disse...

Amiga,

Ter, pelo menos, consciência desta "dor" é meio caminho andado para que as águas possam ser diferenciadas.

A experiência é um dos factores mais importantes no nosso desenvolvimento. Mas também algo que pode bloqueá-lo!

As experiências deles (dos filhos), sob o olhar atento dos pais, é uma das maiores riquezas que os pais podem proporcionar.

Essas experiências podem ser até a partilha das "lições de vida" que os pais aprenderam...

Um beijinho para ti e para as tuas princesas,

Andreia

Jose Gonçalves disse...

Olá Andreia

As sua palavras vêm ao encontro das minhas e traduzem melhor o que penso sobre a educação dos filhos.
São cinco como sabe e penso que não me dei mal com nenhum deles.
Tenho sido algo permissivo em muitas coisas mas quando tenho de mostrar de que lado está a realidade da vida não hesito e tento criar um entendimento baseado na confiança é certo mas sempre no respeito que temos de ter uns pelos outros.
Não necessito de impor autoridade porque ela impõem-se por si própria, mas às vezes é preciso que as diferenças se façam sentir um pouco, e disso não abdico.
Um beijinho
José Gonçalves

Andreia Mendes disse...

Caro José,

É assim mesmo!

É necessário que as crianças e jovens sintam de que lado está a autoridade, e que ela existe.

Essas regras, os nãos, ao mesmo tempo que impõe limites, impõe segurança.

As crianças sabem que embora dali não possam passar, sabem também que quando estiverem em dificuldades existe alguém mais forte que pode tomar conta deles.

Andreia Mendes

PS: Também acho que não se saiu nada mal! :o)

Rita Pinheiro disse...

Olá Andreia!

Finalmente posso dar um bem haja a este espaço de partilha pertinente tal como à sua criadora.:)que bom ...debater um pouquito mais!

Espero que todas as conversas e reflexões geradas aqui, possam lançar sementes de crescimento e permitam inquietar-nos, a nós adultos, para com tranquilidade olharmos para as necessidades das crianças e jovens.

E começo por dizer que penso ser esta a ordem essencial do acto de educar.

Primeiro, a inquietação, isto é, ter espaço e tempo para lembramos o que vivemos, a criança que fomos, as dúvidas que tivemos, o que foi bom, e que nos magoou,

para em segundo, termos uma segurança básica para nos oferecermos, dando pistas e orientações, expectantes e activos, na criança que cresce connosco. .

Penso, que é esta segurança básica que muitas vezes falha, tanto em estilos parentais extremamente autoritários (onde a curiosidade e autonomia da criança são boicotadas) tal como a permissividade, que surge numa anulação dos próprios pais, que confundem o amor com a dádiva incessante tornando-se espectadores pouco intervenientes.

Olhando para o passado, para a geração dos nossos avós, a geração dos nossos pais, percebemos que são colocados diferentes desafios aos jovens pais de agora, que possuem mais recursos, informação em massa sobre o que é educar os seus filhos, e são colocados à prova todos os dias…..

E por outro lado também possuem em massa exigências e competitividade profissional, que rouba tempo, e tira disponibilidade para estar em família.

Surge assim, a permissividade talvez como expressão da falta de tempo, ou o conhecimento distante da criança e jovem que têm em casa, onde o dizer NÃO torna-se sinónimo de conflito exaustivo, e o cansaço vence....

Porém, também penso, que cada vez mais os pais, os jovens pais, têm coragem de se INQUIETAR, e de contrariar modelos educativos, vividos como insatisfatórios, questionam, pedem auxilio, fazem dupla magia com o tempo, e procuram crescer de novo com os filhos.

E é errando ali, e acertando acolá, que vão encontrando a criança curiosa, que revêm agora no filho…não existem educadores perfeitos…

E eu só gostava de arranjar um relógio de areia, em que coubesse um deserto lá dentro, para utilizar só em casa, com as crianças…de forma a olhar o quarto de brinquedos, como um mundo ENORME e VASTO para de mãos dadas….experimentar:)

Até setembro!:)
Rita